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Entrevista publicada por Redação Gospel +

Entrevistas: “Professor Pablo: Música que se multiplica e gera frutos.”

08 de Outubro de 2007 às 06:40:48

Por Catia Dechen
 
Professor Pablo é um rapper preocupado com consciência social, que aborda em sua música temas como racismo e a luta pela auto-estima do negro de forma jovem e sem nenhuma violência.

O ‘Professor’ não é apenas parte de um nome artístico, Pablo é realmente professor e dá aulas de química. Recentemente, lançou o álbum “Blequisploiteixion” cujo título é uma alusão, bem abrasileirada, à ‘Blaxploitation’ – movimento cinematográfico norte-americano da década de 70 que produziu diversos
filmes utilizando apenas atores negros, de forma a atrair o público afro-descendente.

Abaixo você confere um pouco das idéias do Professor Pablo, que fala sobre seu envolvimento com projetos sociais e sobre a cena hip hop no Brasil.


Inversamente ao que vemos hoje na mídia, o álbum “Blequisploiteixion” apresenta letras longas e inteligentes. Como você vê esse fato?

Professor Pablo: Na verdade houve muito trabalho. O disco é fruto de muito trabalho, ele foi realmente esculpido, tudo foi muito pensando, as letras que em minha opinião sempre foram a parte mais importante do rap (pelo menos do rap brasileiro) estavam sendo deixadas de lado nesse momento que o rap ficou mais dançante. As pessoas começaram a se preocupar mais com esse detalhe e deixaram as letras de lado.

Eu não queria que isso acontecesse, eu enxergava esse disco como uma obra que tinha que sair perfeita em todos os seus aspectos e a letra sempre foi o ponto de maior identificação pra mim - eu comecei me dedicando a palestras e projetos sociais - por isso eu pensei muito para fazer essas letras o processo de criação de um disco conceitual como esse é muito complicado e eu não podia perder boas musicas com letras que não tivessem o mesmo nível. E enxergo cada musica no rap como um único tiro onde você tem que passar
diversão, reflexão e informação no mesmo momento.


Nos conte sobre os bastidores da gravação de “Blequisploiteixion”, com músicos de peso e a produção de Lua Lafaiette.

Professor Pablo: Tudo começou como um sonho e depois foi se tornando uma grande realidade, extremamente gratificante, desde o lançamento do meu primeiro disco eu sabia que o meu segundo tinha que ser muito diferente. Eu comecei a visualizar um disco muito mais elaborado e muito mais profissional, que marcasse as pessoas tanto pelo conteúdo, que já era uma preocupação minha no primeiro trabalho, como pela parte artística da coisa.

Foi com essa proposta que cheguei até o Lua Lafaiette e ele aceitou prontamente participar do projeto, foi a fase de maior aprendizado que eu tive na minha carreira artística, trabalhei com pessoas extremamente competentes e qualificadas o que mudou completamente minha percepção em relação à musica, sem contar as lições de vida que aprendi com essas pessoas, no sentido de acreditar num sonho e fazer acontecer, uma vez que viver de musica no Brasil é muito complicado. Viver e ser reconhecido por isso muito mais e essas pessoas, principalmente o Lua, me mostraram que tudo isso é possível, mas sempre de uma maneira muito simples e humilde.


Sobre as participações no álbum, como se deu a escolha, como foram os contatos?

Professor Pablo: Na verdade todas as participações se deram por afinidade, minha ou do Lua Lafaiette. Todas as pessoas que participaram desse disco tinham em comum o fato de acreditarem no projeto, na proposta de construir um disco de rap diferente. Esse foi talvez o grande motivo para a escolha das participações, pessoas que nós já estávamos acostumados a trabalhar e gostávamos de trabalhar, por isso que eu nem vejo como escolha e sim como um processo natural.


Como destacar o negro sem criar um preconceito ao contrário?

Professor Pablo: O destaque que procurei dar ao negro no disco foi o destaque natural, mostrar as qualidades de um povo que muitas vezes passam despercebidas, são simplesmente ignoradas ou se perdem em alguns preconceitos. Em nenhum momento procurei passar uma idéia de superioridade em relação a nenhuma outra raça e sim as condições e qualidade presentes no negro, por isso não se trata de preconceito contrário porque não é uma questão de se colocar de forma superior e sim de mostrar que também existe capacidade no negro.


Como você avalia o hip hop hoje no Brasil?

Professor Pablo: Acredito que o hip-hop hoje passa por uma fase de transição, reformulação. Ele surgiu com muita força e de forma independente mas o maior complicador é que hoje a indústria cultural independente se estruturou muito bem e sinto o hip-hop meio perdido no processo.

Para dar um exemplo, há 10, 15 anos atrás, eu via vários garotos da periferia organizando eventos de hip-hop. Hoje vejo homens donos de gravadoras especializadas com dificuldade na organização dos mesmos eventos, ou seja, algo existe de errado, então eu acredito que o hip-hop acabou não se reorganizando para as novas condições de mercado, só que as pessoas envolvidas já perceberam isso e acredito que todo mundo envolvido está buscando novas alternativas para inverter esse quadro por isso que falo numa transição ou reformulação.


Na sua opinião, qual é o caminho para melhorar a vida das pessoas no Brasil?

Professor Pablo: A vida só vai melhorar com acesso tanto à informação quanto à condições mínimas de vida como saúde, educação, alimentação e saneamento básico e isso é função do governo.


Você é engajado em causas sociais. Conte-nos um pouco sobre esse trabalho.

Professor Pablo: Na verdade eu comecei nesse lado social meu projeto, que eu não chamo de social e sim de vida. Sempre foi relacionado com o fato de levar informação, acho que a comunicação é o que eu tenho de melhor. Me sinto um intermediador nesse processo por isso comecei criando um ciclo de debates levando para comunidades carentes alguns simples questionamentos com objetivo de discutir temas pertinentes àquelas pessoas, mas que muitas delas nunca se quer tinham parado para pensar. Em cima disso eu faço com que a coisa se multiplique e gere frutos. Eu acho que todas as interrogações plantadas na cabeça nas pessoas durante esse processo já trazem um enorme beneficio para suas vidas.


O preconceito e os problemas sociais são diferentes nas diversas regiões do Brasil?

Professor Pablo: Não acredito muito nisso. Eu vejo o preconceito como um problema do ser humano e que não pode ser classificado, não existe preconceito bom ou ruim, nem melhor ou pior preconceito. A mesma coisa eu acredito em relação aos problemas sociais você não ter seus direitos assegurados qualquer que seja esses direitos é complicadíssimo.


Você é professor de química. Como se deu essa oportunidade de trabalhar com música? Você teve receio de mudar de vida?

Professor Pablo: Como eu disse sempre fui envolvido com projetos sócias e isso tem muito a ver com a carreira de professor, por isso me aproximei do hip-hop e passar a escrever as letras e cantar foi um processo muito natural. Eu sempre digo que nada foi pensado, por isso que não trouxe receio ou indecisão.


Você tem se preparado para a música cada vez mais. Você ainda dá aulas? E consegue conciliar tudo?

Professor Pablo: Sim ainda dou aula, e também me preparo muito pra isso. Eu acredito muito que as pessoas devem fazer sempre da melhor maneira possível aquilo que se propuseram a fazer, senão é melhor nem sair de casa. Sendo assim, enquanto estiver dando aula e cantando vou me dedicar ao máximo às duas coisas.


Conte-nos um pouco das dificuldades que você enfrenta em seu trabalho. Você pode descrever brevemente como é um dia típico na sua vida atual?

Professor Pablo: Descrever é difícil uma vez que não tenho uma rotina, mas dou aulas todos os dias, tenho ensaiando muito, pelo menos três vezes por semana, tenho dado várias entrevistas com o objetivo de divulgar o disco novo e quando sobra um tempinho ainda compareço na academia, o que ultimamente está muito difícil...


Quais os próximos passos do Professor Pablo?

Professor Pablo: Ter o meu trabalho cada vez mais reconhecido. Sou um artista independente, o que dificulta um pouco, mas tenho isso como objetivo de vida. Pretendo me firmar cada vez mais no cenário e elevar essa proposta de rap que eu acredito, o estilo “blequisploiteixion” de fazer rap, por isso estou produzindo outros artistas e minha intenção é expandir esse conceito.


Para finalizar, há alguma mensagem que queira deixar para os leitores do Território da Música?

Professor Pablo: Escutem boas musicas, se recusem a ouvir as coisas falsas que existem por aí que só ajudam a nos manter desinformados e alienados e até mesmo com um pensamento bloqueado. Não que a musica tenha que ter aquele caráter social e politizada o tempo inteiro, não é isso, mas também não pode ser descompromissada ao extremo e sem nenhum conceito artístico, só com a intenção de vender e nada mais. Abraço.

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